quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Ser

Nesta jornada da vida, muitas serão as várias dimensões, expectativas e perspetivas que temos e que nos são, com maior ou menor subtileza, impostas.
 
Este vídeo, que recomendo, foi feito com entrevistas a mulheres seniores, digamos (gosto bastante do termo!), as quais nos presenteiam com palavras de evocação, desejo e sentido. (Facebook, divulgado por Patrícia Bezerra.)
 
Vivemos num mundo em que o fazer e, já agora, o ter, são sinistros imperadorzinhos sem lei. É a tal linha reta que já mencionara, é a tal força fajuta das circunstâncias avassaladora. Mais do que nunca, porque é agora que eu e os meus queridos leitores algodónicos vivemos, urge exercer e celebrar o ser. O bom ser, perfetível, o que pode melhorar mas que frui, que apetece, que se está nas impantes tintas para as prisões que os outros lhe querem construir à volta da cabeça, dos braços, do coração, do estômago, dos pés, das asas.
 
Sejamos. Sem amos.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

O nó do mundo

A propósito da morte de Zygmunt Bauman, segundo o que li sociólogo polaco crítico das opções desumanas dos nossos tempos, veio-me à ideia, e mais uma vez, o paradoxo do que temos sistematicamente de atravessar na quotidiana rotina da descivilização.
 
Pensadores que expõem, sem imerecidos dó e piedade, os cancros do sistema como a ganância, o desprezo dos frágeis, sejam frágeis pela sua idade, pela sua capacidade financeira, pela geografia de onde avistam e sentem o mundo, pessoas que esgrimem argumentos competentes e justos, são depois agraciados/elogiados/condecorados pelas peças integrantes do universo que desmascararam. Se gente tão "importante" lhes reconhece valor e razões, não deveria o mundo sofrer de influências menos vis e progredir na ética, na moral, na sofisticação sentimental? Só mais uma contradição...

O mundo ocidental verga-se e rasteja perante países corruptos (todos o são em diferentes escalas mas há-os MUITO, vergonhosamente Corruptos!) como China, Angola, Emirados e tantos outros, em que os direitos humanos mais básicos são esmagados e o ser livre, pensante, o ser que necessita de cuidados, dignidade, espaço, e sobretudo do que é seu por direito, é alarve e superiormente desprezado por quem deveria, em primeiro lugar, honrar e defender o seu povo. Defendemos os propalados valores ocidentais envergando camisolas feitas na China e no Bangladesh, com o suor de inocentes desprezados e sem horas para terminar a sua pobre e triste jorna, mas que dizer das mãos que tecem a Alta Costura? Já leram o Gomorra, do intrépido (e perseguido) Roberto Saviano? Ah pois, leiam e verão que até lojas na Avenida da Boavista são citadas. Meus caros, já dizia Cartola que o Mundo é um Moinho e que "vai reduzir as ilusões a pó". Como não, face a esta galeria infernal de interesses de terceira linha?
 
Trabalha-se uma vida, tenta-se caber, por vezes a que preço, nos cânones de uma sociedade que, se individualmente inquirida, não sabe de nada e tudo coloca em causa (o que pode ser deveras proveitoso), mas que na massa da esperta acefalia reinante se arroga de elevada jurisprudência e preceito. Os jovens, em massa, bestificados por comportamentos grupais alienados, individualmente monstros de fragilidade e, tantas vezes, agonia.
 
Tenta-se seguir uma linha reta na vida, quando a joia de uma qualquer deambulação que valha a pena são os caminhos, os desvios, as descobertas mais inesperadas.
 
Tudo isto para quê? Para continuar a calcar-se a verdade, para continuarmos amorfos em sonhos opiáceos que nos lentificam e cegam e enlouquecem, para engrossarmos as filas dos que procuram químicos para resistirem, para nos tentarmos desesperadamente esquecer que o que mais importa é a demanda da maravilha e nada, nada abaixo disso.
 
Nada, leitor, nada abaixo disso.
 
Ouviu?
 
Nada.

Esse verbo

Olá queridos leitores.
 
Mirem a barrinha lateral, a Jangada Poética Alegórica deste singelo espacinho. Outros ventos, favoráveis, este apelo de Drummond que tão bem casa com o reinício do Sentido que pode emprestar-se a cada ano novo.
 
Conseguiremos a conjugação desse verbo? Consumaremos o seu sumo? Oh, tarefa! Tarefa a tentar na Terra. Como o início? Talvez simples, como o andamento fácil da curva do rio.


Além da Terra, além do Céu,

Além da Terra, além do Céu,
no trampolim do sem-fim das estrelas,
no rastro dos astros,
na magnólia das nebulosas.
Além, muito além do sistema solar,
até onde alcançam o pensamento e o coração,
vamos!
vamos conjugar
o verbo fundamental essencial,
o verbo transcendente, acima das gramáticas
e do medo e da moeda e da política,
o verbo sempreamar,
o verbo pluriamar,
razão de ser e de viver.


Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Abertura




Foto de Zim


E do meu amado interlúdio beirão...

De hoje mesmo para si, leitor:


      Abertura

Um machado crepita, baixo, no madeiro
Antecipando o fragor do fogo
Ao longe, num maravilhado distar
Posam, espreguiçadas, as montanhas azuis
Há cânticos subterrâneos
Com louvores ao aquecimento da terra no início
Da tarde
O langor ternurento do gato deitado
De fofa barriga branca
Tudo pousa, tudo transparece
As pequenas queimadas dançam verde acima
Uma ou outra máquina laboriosa
Tudo insiste, doce e magnífico
Aqui toda a infância, todo o futuro
A vida aberta debaixo do sol

 

sábado, 31 de dezembro de 2016

Viva!

 
 
Não sei infelizmente a autoria desta bela pintura... mas fica a obra!
 
Estremecidos leitores algodónicos por todo este vasto Mundo espalhados, nem peço perdão, pois não o mereço. Compreendam a razão reinante da minha ausência: andei por aí a viver, a demandar, a demandar.
 
Claro que esta altura de fecho e reinício de ciclos é sempre preciosa, e claro também que isso não é desculpa para vos falar tão espaçadamente. Mas sabeis, o Espaço, o Espaço é enorme e um perde-se!
 
Para mim, o presente ano foi Amoroso e Radical. Entre coisas muito boas e delicadas e raras, entre as flores formidáveis, muitos desconfortos também me assolaram, medos e mal-estar. Desarranjos, desapontamentos, desilusões, confirmação de que nunca passarei de uma assistemática e, portanto, inimiga do sistema, mesmo sendo assim pequena e com tão pouco poder. O sistema a todos vigia e seleciona, não tenham ilusões. Leitor, atento à sua escolha!
 
Uma coisa demarcou de maneira deveras importante o ano agora quase a refluir para um Além Cronosal: ser tomada pela certeira, forte, e por vezes temível sensação do que não quero. Sempre preferi as virtudes das escolhas pela positiva. Mas o que se quer pode ser tanto, tão distante e tão difuso que tê-lo apenas por referência periga ser, curiosamente, paradoxalmente, pouco. É a sensação, estimados, de que a força das circunstâncias, se for tomada em conta, nos empurra inexoravelmente para um destino que nós não queremos que permite um certo despertar da ataraxia. É isso, essa força das circunstâncias, camaradas, que não pode ser tomada em conta, se o seu rumo não for por nós desejado. E a alternativa? Não me obriguem a vernáculos minhotos: que se arranje! Se o que não se quer é claro, verão que a alternativa positiva, que não a fuga, se espraiará viçosa e correrá aos vossos braços. Deixem e devolvam o abraço ao que não é o que não querem. Paulatinamente, deixem espreguiçar, ao seu tempo, nos rigores da sua estação própria, a floração prazenteira do que querem.
 
Tudo isto é um sopro: que nos seja longo e em delícia.
 
Feliz Ano Novo, leitores queridos! Entra em cena, fantástico 2017, e sê decisivamente Bom.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Saca la Muerte de Tu Vida


Rodrigo Tavares - Esteban - Saca la Muerte de Tu Vida


Um disco de Rodrigo Tavares, absolutamente:



                                                            lindo e impecável.

Brasil.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Silvar

Silva canta Sou Desse Jeito
 
 
Está um dia lindo, os passarinhos gorjeiam, e o Silva tem o particular dom da felicidade. Novo disco: Júpiter. Muito recomendável.

sábado, 30 de abril de 2016

Deixa-me, Leminski

Deixa-me, Leminski, por Deus! É sábado, e so what? A water de beber continua a cair das pedras, encanada, represada, e ainda por cima tenho de comprar garrafões da cuja. So what the foca? As flores não precisam de nenhuma desculpa para fenecer, mesmo no sábado, elas assim definham, entediadas, só precisam de um golpe olhado de desejo de alguém que as saque ainda jovens, que as fustigue na velhice, num vento, no ócio de um gesto manso.
 
O quisto do cachorrinho do lado incomoda-me. Queria salva-lo, que importa ser sábado? Outros portões da mente são abertos neste dia com castas finalidades de arejamento e acabamos neste genocídio de intenções?
 
Sou um genocídio de intenções. Também isto, camaradas, não servirá para meu epitáfio. Aliás, só quererei um epitáfio se me decidir pelo funeral egípcio imperial.
 
Sábado, so what, Sunday, e daí, Segunda, so what, Tuesday, e daí, Quarta, so what, Thursday, e daí, Sexta, so what, eu, so what. Desde 1976 a robustecer e estupidificar nas mais sofisticadas pipas de madeira da Floresta Negra. Foca the world.
 
Preciso muito de ti, Ginsberg, desde há muito. Nunca podemos separar-nos mais que uns meses. Acho que és o poeta de quem mais preciso no mundo e de todos os tempos. Quero ir para o teu colo, e sentar-me no lado esquerdo da tua cabeça, e intuir contigo o reclinar da flor. És um bruto e eu amo-te, caridosa alma amiga.
 
Sábado, podias implodir-te já e trazer aquele tempo sem fim, aquele tempo sem fim que mataria qualquer tédio.
 
And now...what?

terça-feira, 26 de abril de 2016

Abram alas para as (algumas das) coisas que eu detesto

  1. Que acabem as rosquinhas quando quero mais.
  2. Quando estou gordíssima e não me apetece fazer nada para ficar diferente.
  3. Quando num primeiro encontro 2 ou 3 pessoas, seja qual for a relação, querem "rachar" (crrrredo) a conta.
  4. Quando oferecemos alguma coisa como uma guloseima e a pessoa diz que mais tarde talvez queira. Deveras? Tenho de guardar o que estou a degustar agora e que partilharia com prazer agora para tempos indeterminados? E se quiser tudo a que tenho direito ???
  5. Quando alguém sugere dividir uma dose abaixo do selvaticamente grande  no restaurante: mas a que propósito? Quero a minha toda! O mesmo para sobremesas, claro.
  6. Quando os outros não querem sobremesas mas depois bicam a nossa com colheres de forma a ficarmos tristemente empobrecidos.Bah.
  7. Quando os meninos não deixam as meninas passar à frente e não seguram as portas.
  8. Quando as pessoas não são coerentes nem leais.
  9. Quando as pessoas são tão escandalosamente gabarolas que nos provocam constrangimento e vergonha alheia.
  10. Que me visitem ou insinuem visitas sem me contactar previamente e saber se estou disponível, tipo...."Estava a passar por aqui...".
  11. Que certos empregados de certas lojas me tratem por tu.
  12. Que certo tipo de gente me trate por tu.
  13. Que queiram controlar o mais ínfimo do mais insignificante do mais semi-invisível aspeto da minha vida.
  14. Que achem que sabem o meu gosto para presentes em geral e particular.
  15. Quando há barulhos de obras ao fim-de-semana.
  16. Quando há qualquer barulho a qualquer hora.
  17. Quando gente que não é chegada a moda icónica se atreve a comentar o meu estilo com ar entendedor.
  18. Quando me chateiam em geral.
  19. Quando  me chateiam em particular.
  20. Quando sou obrigada a falar com gente com ar desagradável, pouco inteligente e pouco afável.
  21. Quando tenho de sustentar uma conversa com gente sem ideias, sem aparentes idiossincrasias e sem humor.
  22. Quando me dão por garantida.
  23. Quando não me deixam em paz.
  24. Quando algumas pessoas teimam em respirar ao pé de mim: feias, descuidadas, horrorosas, escabrosas, repelentes.
  25. Quando as criancinhas ameaçam ruir o mundo aos berros e os lerdos paizinhos acham normalíssimo.
  26. Quando coisas hediondas, anormais, vis, indignas, são consideradas normalíssimas.
  27. Quando gente estúpida se reproduz.
........ Muitos outros números deveriam desfilar.... atualização permanente.

Sim, sou pessoa sensível.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

De mim, segundo H.D.

Um dos frescos presentes que me deram recentemente, e fresco porque ecoa na memória não sendo, assim, só memória, mas seiva de algum porvir - bom, isso é aguardar.
 
Reza, mais ou menos, assim:
 
"Havia um agricultor que tinha as suas semeaduras habituais. A partir de dado momento, foi abandonando os trabalhos da terra. Deixou de semear milho, trigo, batatas, tudo enfim. Toda a sua propriedade ficou infrutífera, tornando-se um baldio.
 
O agricultor ficou triste, frustrado, ansioso, e explicava ao mundo, perplexo, que alguma coisa sucedera, que ocorreram uns fenómenos e que as suas terras assim ficaram desoladas, como ele mesmo.
 
Tem de ser agricultora de si mesma, Tambo."
 
Vou começar amanhã a tentar perder toneladas, veremos onde esta agriculmim me leva. O baldio cansa e rouba sol, flores e sombra.
 
Por que não? Ainda que apenas mais uma distração, somente novas paisagens. Por que não, se tudo é ir? Alento, algum, uma microcápsula de alento, por que não?

domingo, 24 de abril de 2016

Prince a brotar flores

                                                      Prince - Creep (Radiohead)


Foi só há minutos que conheci esta versão de uma canção que amo há muitos anos, dos esplêndidos Radiohead.

A parte final é de cortar a respiração. Prince a dar-nos vida. Muito amado, muito love.

Your extra time and... kiss

                                                                 Prince - Kiss



Claro que eles tomam ainda mais conta do nosso pensamento quando percebemos que também são finitos. Como não?

Da barrinha lateral

Quem acompanha mais atentamente a Alegoria certamente não sossegará, seguramente há mais de um ano, com a não atualização da barrinha poética lateral. Mas é que aquele poema da Hilda Hilst, sempre que o leio ali, lateralmente, é-me tanto, que toma o palco.

O

s
i
l
ê
n
c
i
o

.

E tudo o mais.