domingo, 2 de dezembro de 2012

Tamborim Zim entrevista... Rui Zink

A Instalação do Medo - Rui Zink

Edição da Teodolito

"A literatura que me interessa é sempre uma resposta à realidade."      Rui Zink

E o mês começa da melhor forma. Já anteriormente pedira aos meus sensíveis leitores o uso imprescindível de protetor estelar. Pois na senda dos meus brilhantes entrevistados, que podem encontrar mais abaixo, na barrinha lateral multitasking desde bloguium, apresento agora uma entrevista quentinha e a estalar: Rui Zink é a nossa companhia de hoje.
 
Todos o conhecemos: escritor, professor universitário, conversador (inspirador, exasperante e delicioso), um demandante que, nas palavras que usou numa das respostas, acrescenta "pontos". E a mim, como sua ex-aluna, acrescentou vários no que respeita à minha maneira de olhar e entender a Literatura e o meu próprio escrevinhar.
 
Penso, não sem emoção, na coincidência que foi ter sido aluna, com dez anos de idade, da sua mãe, Alice Zink. Zim meets Zinks.
 
Estou muito curiosa com o seu novo romance, A Instalação do Medo, cujo vídeo de apresentação podem ver acima. Depois dir-vos-ei de minha justiça. Maria Alzira Seixo, Prémio Vergílio Ferreira 2011, considera-o: "(...) o livro da nossa época. Magnífico!".
 
Fica a entrevista e o meu agradecimento à generosa disponibilidade de Rui Zink.
 
Tamborim Zim  - A Instalação do Medo cumpre uma metáfora ou está impressa, nesse livro de capa dura, com o peso da literalidade?

Rui Zink -  Ambas as coisas. A literatura que me interessa é sempre uma resposta à realidade.

TZ - Tenho muita curiosidade sobre os processos criativos. Como é que começa a conceber uma história? Blocos de notas, folhas afixadas pelas paredes da casa com esquemas mirabolantes, ou tudo vertido a jato e sem filtro no computador?

RZ -  De todas as formas e de todas as maneiras. Passados tantos anos e tantos livros (fiz o primeiro romance, graças a Deus muito mau, aos 18) continua a ser um mistério. Mas durante os primeiros anos ter uma disciplina ajudou-me. Era cinco páginas diárias. Hoje são menos. Muitas ideias vêm-me em conversa ou quando leio jornais ou vou de metro. O segredo é estar disponível.

TZ - Voltando ao literal... Imagine que podia decretar 5 leis que nos ajudassem a sair desta loja de horrores. Quais seriam?

RZ -  1) Proibir a hipocrisia. 2) Multar a demagogia. 3) Obrigar os filhos dos ministros a frequentarem a escola pública. 4) Interditar por dez anos que ex-governantes ocupem cargos em empresas com as quais negociaram, em nome do Estado, com prejuízo óbvio para o Estado. 5) Duplicar, no legislador e classe dirigente, os "sacrifícios" que pedem aos outros.

TZ - Enquanto professor, como é que avalia o espírito dominante dos seus alunos? As letras continuam a motivar, apesar de ser, aparentemente, um interesse insulado do real, sem lugar no mercado de trabalho? Ou trata-se da instalação da letargia?

RZ -  Há uma disponibilidade que os alunos têm sempre, o problema é que nem sempre sabem que a têm. O que me irrita é quando entendem como devaneio o esforço que faço e o tempo que gasto para lhes despertar "o monstro".
 
TZ - Quais são os seus três escritores de predileção, no momento?

RZ - Os desta semana? Ricardo Marques, João Silveira, Alexandra Antunes. Jovens poetas pouco conhecidos, mas os poetas (ao contrário dos prosadores) não precisam de ser muito conhecidos.
 
TZ - Voltando-nos um pouco para a poesia. Considera que há ainda alguma metáfora a ser criada, uma única hipérbole que impressione, alguma coisa nova pela qual valha efetivamente a pena escrever um poema?

RZ - Sim. Há sempre. Tal como não podemos pensar que só existe o que está à nossa frente, também está por escrever a metáfora que nos salve, a hipérbole que nos redima, a coisa nova que nos devolva ao mundo. Mas como ouvi um senhor dizer a propósito do Messias (Leibowitz), o verso que nos salve vem aí, mas se vier aí é porque não é o verso que nos salva, apenas um falso verso. Porque a condição mesma do verso que nos salva é "vir aí", Um dia. (E esse dia já não está tão longe como isso. Mas não, não é amanhã. É "um-dia".)

TZ - Não 7 cartas, mas 7 frases. Quais seriam as 7 frases que dirigiria a um jovem escritor que lhe pedisse conselho?

RZ - 1) Escreve para ti, mas publica para os outros. 2) Lê como um escritor, escreve como um leitor. 3) O que tens para dizer ao mundo? 4) Como contas acrescentar um ponto? 5) Há desculpas para não dormir com a Angelina Jolie ou o Brad Pitt, não há para não ler, escrever, viver. 6) Traz sempre um caderno no bolso e uma caneta nos olhos. 7) Quando estás a ir de casa ao café estás já a contar uma história.

7 comentários:

Tétisq disse...

Uau...muito bem, a senhora Zim é muito bem relacionada...

Gosto da ideia de ter sempre "uma caneta nos olhos" . Vou tentar seguir as sábias sugestões.

Obrigada por partilhares este momento!

Tamborim Zim disse...

Muito obrigada eu, por leres :) Os nossos professores são muito queridos e aturam-nos! Sim, as sugestões são mesmo muito ricas e abrem caminho a mil desafios. Saber pegar-lhes é logo o primeiro...

Pagu disse...

Entrevista à Zim, respostas à Zink.

A combinação só podia ser perfeita.

Perguntas inteligentes e instigantes, respostas directas e relevantes.

A Tambo tem sempre estas cartas na manga.....rsrsrs

Tamborim Zim disse...

Muito obrigada! Com entrevistados assim, qqer pergunta tem uma excelente resposta :)) E prepare-se minha dileta escritora pq em breve... em breve...

Anónimo disse...

excelente Tamborinzim :)

Tamborim Zim disse...

Gratinzim :)

Pagu disse...

COF...COF....COF....